"Se quiseres fazer azul pega num
pedaço de céu e mete-o numa panela grande que possas levar ao lume do
horizonte; Depois mexe o azul com um resto de vermelho da madrugada, até que
ele se desfaça; despeja tudo num bacio bem limpo, para que nada reste das
impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro
da areia do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo do metal. Se quiseres, para
que as cores não se desprendam com o tempo, deita no líquido um caroço de
pêssego queimado. Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez ali
o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre na superfície
dourada.
Podes, então, levantar a cor até
à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico. Ambas as cores te
parecerão semelhantes, sem que possas distinguir uma e outra. Assim o fiz – eu
Abrãao Ben Judá Ibn Haim, iluminador de Loulé – e deixes a receita a quem
quiser algum dia, imitar o céu."
Nuno Júdice

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